Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer
de me ser fácil entrar sem constrangimento nas casas conhecidas. A minha
sensibilidade do novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado.
*
Depois que os últimos pingos da chuva começaram a
tardar na queda dos telhados, e pelo centro pedrado da rua o azul do céu
começou a espelhar-se lentamente, o som dos veículos tomou outro canto, mais
alto e alegre, e ouviu-se o abriu de janelas contra o desesquecimento do sol.
Então, pela rua estreita, do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do
primeiro cauteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja fronteira
reverberavam pelo espaço claro.
*
Um sopro leve de vento, que por trás da janela não
sinto, rasga em desnivelamentos aéreos a queda retilínea da chuva. Clareia
qualquer parte do céu que não vejo. Noto-o porque, por trás dos vidros
meio-Hmpos da janela fronteira, já vejo vagamente o calendário na parede, lá
dentro, que até agora não via. Esqueço. Não vejo, sem pensar. Cessa a chuva, e
dela fica, um momento, uma poalha de diamantes mínimos, como se, no alto,
qualquer coisa como uma grande toalha se sacudisse azulmente dessas migalhinhas.
Sente-se que parte do céu está já azul. Vê-se, através da janela fronteira, o
calendário mais nitidamente. Tem uma cara de mulher, e o resto é fácil porque o
reconheço, e a pasta dentifrícia é a mais conhecida de todas.

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